October 21
Lá fora a chuva cai e eu sigo a sua melodia percorrendo com os dedos as gotas que caem pela minha vidraça... fecho os olhos e sinto os fios de teus cabelos a escorrer entre meus dedos...amo essa sensação... viajo sem rumo nos meus pensamentos e finalmente encontro-te... lá bem longe onde nada conta... nada acontece... tudo me enternece... tudo me preenche... com a tua imagem... o teu cheiro... a tua presença... a tua companhia…
Lá fora a chuva cai e eu sigo a sua melodia como se seguisse tua voz... a voz que me invade... longínqua como a noite… suave como a escuridão… eterna como a vida… quase a consigo tocar… quase a consigo beijar… parto então para além do infinito… onde nada é como é… onde todos os véus caem e todas as máscaras derretem… onde o som se torna trémulo… onde o silencio diz tudo… onde o vazio se torna ensurdecedor…
Lá fora a chuva cai e eu sigo a sua melodia como se fosse teu choro… essa aura negra que te envolve e apenas eu vejo… que me aperta o peito e me faz querer gritar… grito… o aperto aumenta… choro… não consigo chorar… tento praguejar… as palavras saem mudas… corro… fujo… a tua dor não me larga… tropeço… caio… esbracejo… debato-me com todas as forças… o aperto aumenta… grito… tento chorar… tento praguejar… o aperto sufoca-me… não consigo ver… não consigo ver… estou cego!!!
… Acordo!?! Esboço um leve sorriso que se esbate lentamente porque o aperto continua lá… bem no centro do meu peito… queima-me a alma… olho para o lado e lá estás tu… estendes a mão… pedes ajuda com os olhos encharcados de nada… um vazio de quem não sabe para onde ir… tento alcançar-te… corro mas não chego… toco-te… desapareces… surges mais longe ainda… volto a correr… o meu coração bate mais forte… arde… aperta… sufoco… e… vejo-te cair…
… Acordo!?! Sim… finalmente acordo… olho para o lado e nem a visão de quem amo mais que a própria vida alivia minha dor… finalmente choro… choro enquanto te recordo a cair no meio do escuro… com os braços estendidos na minha direcção… com os olhos encharcados de nada… um vazio de quem não sabe para onde ir… mais uma vez estendo meus braços para te alcançar… suplicavas? Pedias ajuda? Eu corri, lembras-te? Corri o máximo que pude, lembras-te? De que fugias? Para onde fugias? Fugias de mim? Fugias de ti? Porque fugias?
…
Dolorosamente ergo minha cabeça… estou cansado… meu corpo tira-me da cama… saio do quarto e arrasto-me até ao escritório… minhas mão, ainda a tremer escrevem qualquer coisa num papel que depois dobram e guardam… acendo um cigarro… vou até à janela…
Lá fora a chuva cai e eu sigo a sua melodia percorrendo, com medo, as linhas da minha memória…